PensamentosAté aqui, estava a juntar vida
Tenho a sensação de que comecei a viver aos quarenta.
Antes disso, vivi muita coisa. Trabalhei, fui militar, tornei-me empresária. Tomei decisões, algumas depressa demais. Acertei. Enganei-me. Continuei.
Durante anos, havia sempre qualquer coisa à minha espera. Uma responsabilidade. Uma pessoa. Um problema para resolver.
Eu também estava à minha espera, embora só agora perceba isso.
Aos quarenta, comecei a fazer perguntas para as quais nunca parecia haver tempo.
De que é que eu gosto?
O que faria se ninguém estivesse à espera de nada de mim?
Que partes minhas ficaram para depois?
A fotografia chegou a esse lugar.
Dou por mim a reparar numa sombra, na forma como alguém pousa as mãos, numa luz que daqui a pouco desaparece. E apetece-me ficar. Experimentar. Fazer alguma coisa com aquilo que vejo.
Ainda tenho responsabilidades. Ainda há dias em que me perco nelas.
Mas agora reconheço a vontade de ter uma vida onde também caiba eu.
Talvez, até aqui, estivesse a juntar experiências.
Agora começo a perceber o que quero fazer com elas.
PoemasQuase te liguei
Hoje aconteceu uma coisa pequena.
Daquelas que só tinham graça
se eu te pudesse contar.
Peguei no telemóvel.
Ainda sei onde procurar o teu nome.
Fiquei assim por um instante,
com o polegar parado,
enquanto a água fervia na cozinha.
Há ausências que chegam desta maneira.
Num café que sobra.
Numa rua onde viramos por hábito.
Na vontade de dizer:
«Nem imaginas o que me aconteceu.»
Pousei o telefone
com o ecrã virado para baixo.
Abri a janela.
Alguém ria na rua.
Um carro demorava a pegar.
A roupa da vizinha
batia devagar no estendal.
Fiquei a olhar.
Depois fiz o café,
esqueci-me do açúcar
e bebi-o junto à janela.
A coisa pequena
continua por contar.
Escrevo-a aqui.
PoemasA memória das mãos
Desapertaste o meu colar
com o cuidado de quem abre
uma carta antiga.
O fecho caiu entre os teus dedos.
Na minha nuca,
o frio pequeno do metal.
Depois a tua mão.
A rua continuava lá fora.
Um autocarro travou.
Alguém chamou por alguém.
Eu tinha os olhos fechados
e a tua respiração
junto ao ouvido.
Agora prendo o colar sozinha.
Às vezes demora.
O fecho foge-me dos dedos.
Levanto o cabelo.
Deixo a nuca descoberta
mais um instante.
PoemasO lado frio
Mudei os lençóis.
Abri as janelas.
Levei o teu copo para a cozinha.
O quarto ficou quase novo.
À noite,
a cama fazia o mesmo ruído
quando me deitei.
Estendi a perna
até ao lado onde dormias.
O algodão estava frio.
Houve um tempo
em que eu encostava o pé ao teu
e tu o prendias entre os tornozelos,
ainda a dormir.
Hoje fiquei quieta.
De manhã,
o sol atravessou a persiana
e aqueceu primeiro
a tua metade.
PoemasAntes da tua mão
Ainda estavas à porta
e eu já tinha pousado o copo.
Disseste o meu nome.
A casa pareceu escutá-lo.
Havia uma cadeira entre nós,
um candeeiro aceso,
a chuva a escorrer no vidro.
Falámos de coisas pequenas.
Eu ouvia a tua voz
e via a tua boca
antes de compreender as palavras.
Quando te sentaste ao meu lado,
os nossos joelhos tocaram-se.
Nenhum dos dois se afastou.
A tua mão chegou depois,
devagar,
como quem confirma
uma coisa que já sabia.
Fiquei com a palma aberta
sobre a tua.
Lá fora, continuava a chover.
Dentro de mim,
a espera tinha mudado de nome.
PoemasA corrente
Chegaste perto
para me dizer qualquer coisa
que a música não deixava ouvir.
Senti a tua respiração
antes da frase.
Um arrepio subiu-me pelas costas.
Pousaste dois dedos no meu braço.
O meu corpo respondeu
num lugar onde não me tocaste.
À nossa volta,
as pessoas continuavam a conversar.
Uma mulher procurava o casaco.
Alguém enchia um copo.
Eu estava ali,
mas havia uma parte de mim
que já se inclinava para ti.
Quando recuaste,
o ar voltou a caber entre nós.
Ainda passei a mão pelo braço,
sobre o lugar exato
dos teus dedos.
O calor demorou a sair.
PoemasFica até eu adormecer
Hoje tenho pouca força
para ser interessante.
Deixei a loiça na bancada.
Há uma camisola no chão.
A luz da cozinha ficou acesa.
Se vieres,
senta-te perto.
Não te vou saber contar tudo
pela ordem certa.
Talvez comece pelo fim.
Talvez me cale a meio.
Põe a mão no meu cabelo
quando eu perder as palavras.
Quero ouvir-te respirar
sem precisar de perguntar
se ainda estás aqui.
Mais tarde,
quando o sono me soltar os dedos,
apaga a luz.
Deixa a tua mão
onde eu a possa encontrar.
PoemasO teu nome na minha pele
Beijaste-me o ombro
antes de adormecer.
Um gesto tão pequeno
que quase o deixei passar.
Hoje, no banho,
a água caiu nesse lugar.
Lembrei-me do peso da tua cabeça,
do lençol preso entre as pernas,
da maneira como me puxavas para perto
sem abrir os olhos.
Encostei a testa ao azulejo.
Deixei a água correr.
Tenho saudades de te ouvir rir
quando me engano numa palavra.
Da tua mão a procurar a minha
por baixo da mesa.
E desse beijo no ombro.
Se voltasses,
talvez começasse por aí:
o rosto junto à minha pele,
a boca pousada,
um instante
em que nenhum de nós
precisasse de se defender.
PoemasA porta entreaberta
Quando saíste,
deixei a porta entreaberta
até o elevador chegar.
Ouvia-te procurar as chaves.
Depois o metal da porta.
Depois nada.
Voltei para o quarto.
A almofada ainda guardava
a forma da tua cabeça.
Sentei-me na beira da cama
com a frase que devia ter dito
presa atrás dos dentes.
Tínhamos acabado de estar tão perto.
Eu sabia o lugar da tua cicatriz,
a temperatura das tuas mãos,
o som que fazias ao adormecer.
E, naquela noite,
nenhum desses caminhos
me levou até ti.
De manhã,
fechei a porta.
Ainda devagar,
para não fazer barulho.
PoemasAinda acesa
Passei tanto tempo
a tentar esquecer-te
que quase deixei de reparar
no que ainda me chamava.
Hoje alguém me olhou
e eu sustive-lhe o olhar.
Foi só isso.
Uma mesa de café.
O sol nas minhas mãos.
Uma pergunta a que respondi
mais devagar do que precisava.
Depois, na rua,
senti vontade de desapertar o casaco.
O ar tocou-me o peito.
Caminhei sem procurar
um lugar onde chegar.
Ainda há noites
em que te procuro no escuro.
Mas esta manhã
houve calor no meu corpo
que não veio da tua memória.
Fiquei um pouco ao sol.
Deixei-o ficar.