Daniela Riboira OliveiraFOTOGRAFIA DE AUTOR
PTEN

O MEU CADERNO · DANIELA RIBOIRA OLIVEIRA

Há coisas que
preciso de escrever.

Poemas. Pensamentos. Fragmentos de vida.
Um lugar para aquilo que não cabe numa fotografia.

A abrir o caderno…

Pensamentos

Até aqui, estava a juntar vida

Tenho a sensação de que comecei a viver aos quarenta. Antes disso, vivi muita coisa. Trabalhei, fui militar, tornei-me empresária. Tomei decisões, algumas depressa demais. Acertei. Enganei-me. Continuei. Durante anos, havia sempre qualquer coisa à minha espera. Uma responsabilidade. Uma pessoa. Um problema para resolver. Eu também estava à minha espera, embora só agora perceba isso. Aos quarenta, comecei a fazer perguntas para as quais nunca parecia haver tempo. De que é que eu gosto? O que faria se ninguém estivesse à espera de nada de mim? Que partes minhas ficaram para depois? A fotografia chegou a esse lugar. Dou por mim a reparar numa sombra, na forma como alguém pousa as mãos, numa luz que daqui a pouco desaparece. E apetece-me ficar. Experimentar. Fazer alguma coisa com aquilo que vejo. Ainda tenho responsabilidades. Ainda há dias em que me perco nelas. Mas agora reconheço a vontade de ter uma vida onde também caiba eu. Talvez, até aqui, estivesse a juntar experiências. Agora começo a perceber o que quero fazer com elas.
Poemas

Quase te liguei

Hoje aconteceu uma coisa pequena. Daquelas que só tinham graça se eu te pudesse contar. Peguei no telemóvel. Ainda sei onde procurar o teu nome. Fiquei assim por um instante, com o polegar parado, enquanto a água fervia na cozinha. Há ausências que chegam desta maneira. Num café que sobra. Numa rua onde viramos por hábito. Na vontade de dizer: «Nem imaginas o que me aconteceu.» Pousei o telefone com o ecrã virado para baixo. Abri a janela. Alguém ria na rua. Um carro demorava a pegar. A roupa da vizinha batia devagar no estendal. Fiquei a olhar. Depois fiz o café, esqueci-me do açúcar e bebi-o junto à janela. A coisa pequena continua por contar. Escrevo-a aqui.
Poemas

A memória das mãos

Desapertaste o meu colar com o cuidado de quem abre uma carta antiga. O fecho caiu entre os teus dedos. Na minha nuca, o frio pequeno do metal. Depois a tua mão. A rua continuava lá fora. Um autocarro travou. Alguém chamou por alguém. Eu tinha os olhos fechados e a tua respiração junto ao ouvido. Agora prendo o colar sozinha. Às vezes demora. O fecho foge-me dos dedos. Levanto o cabelo. Deixo a nuca descoberta mais um instante.
Poemas

O lado frio

Mudei os lençóis. Abri as janelas. Levei o teu copo para a cozinha. O quarto ficou quase novo. À noite, a cama fazia o mesmo ruído quando me deitei. Estendi a perna até ao lado onde dormias. O algodão estava frio. Houve um tempo em que eu encostava o pé ao teu e tu o prendias entre os tornozelos, ainda a dormir. Hoje fiquei quieta. De manhã, o sol atravessou a persiana e aqueceu primeiro a tua metade.
Poemas

Antes da tua mão

Ainda estavas à porta e eu já tinha pousado o copo. Disseste o meu nome. A casa pareceu escutá-lo. Havia uma cadeira entre nós, um candeeiro aceso, a chuva a escorrer no vidro. Falámos de coisas pequenas. Eu ouvia a tua voz e via a tua boca antes de compreender as palavras. Quando te sentaste ao meu lado, os nossos joelhos tocaram-se. Nenhum dos dois se afastou. A tua mão chegou depois, devagar, como quem confirma uma coisa que já sabia. Fiquei com a palma aberta sobre a tua. Lá fora, continuava a chover. Dentro de mim, a espera tinha mudado de nome.
Poemas

A corrente

Chegaste perto para me dizer qualquer coisa que a música não deixava ouvir. Senti a tua respiração antes da frase. Um arrepio subiu-me pelas costas. Pousaste dois dedos no meu braço. O meu corpo respondeu num lugar onde não me tocaste. À nossa volta, as pessoas continuavam a conversar. Uma mulher procurava o casaco. Alguém enchia um copo. Eu estava ali, mas havia uma parte de mim que já se inclinava para ti. Quando recuaste, o ar voltou a caber entre nós. Ainda passei a mão pelo braço, sobre o lugar exato dos teus dedos. O calor demorou a sair.
Poemas

Fica até eu adormecer

Hoje tenho pouca força para ser interessante. Deixei a loiça na bancada. Há uma camisola no chão. A luz da cozinha ficou acesa. Se vieres, senta-te perto. Não te vou saber contar tudo pela ordem certa. Talvez comece pelo fim. Talvez me cale a meio. Põe a mão no meu cabelo quando eu perder as palavras. Quero ouvir-te respirar sem precisar de perguntar se ainda estás aqui. Mais tarde, quando o sono me soltar os dedos, apaga a luz. Deixa a tua mão onde eu a possa encontrar.
Poemas

O teu nome na minha pele

Beijaste-me o ombro antes de adormecer. Um gesto tão pequeno que quase o deixei passar. Hoje, no banho, a água caiu nesse lugar. Lembrei-me do peso da tua cabeça, do lençol preso entre as pernas, da maneira como me puxavas para perto sem abrir os olhos. Encostei a testa ao azulejo. Deixei a água correr. Tenho saudades de te ouvir rir quando me engano numa palavra. Da tua mão a procurar a minha por baixo da mesa. E desse beijo no ombro. Se voltasses, talvez começasse por aí: o rosto junto à minha pele, a boca pousada, um instante em que nenhum de nós precisasse de se defender.
Poemas

A porta entreaberta

Quando saíste, deixei a porta entreaberta até o elevador chegar. Ouvia-te procurar as chaves. Depois o metal da porta. Depois nada. Voltei para o quarto. A almofada ainda guardava a forma da tua cabeça. Sentei-me na beira da cama com a frase que devia ter dito presa atrás dos dentes. Tínhamos acabado de estar tão perto. Eu sabia o lugar da tua cicatriz, a temperatura das tuas mãos, o som que fazias ao adormecer. E, naquela noite, nenhum desses caminhos me levou até ti. De manhã, fechei a porta. Ainda devagar, para não fazer barulho.
Poemas

Ainda acesa

Passei tanto tempo a tentar esquecer-te que quase deixei de reparar no que ainda me chamava. Hoje alguém me olhou e eu sustive-lhe o olhar. Foi só isso. Uma mesa de café. O sol nas minhas mãos. Uma pergunta a que respondi mais devagar do que precisava. Depois, na rua, senti vontade de desapertar o casaco. O ar tocou-me o peito. Caminhei sem procurar um lugar onde chegar. Ainda há noites em que te procuro no escuro. Mas esta manhã houve calor no meu corpo que não veio da tua memória. Fiquei um pouco ao sol. Deixei-o ficar.

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